Em Foco

Viver com órgãos de outros

(Fotografia da internet)

“Neste momento, o que mais falha, é a colheita de órgãos para novos transplantes. Já estivemos no topo, a nível mundial. Eramos dos países que mais transplantava e com melhor qualidade. Mas, por causa das novas políticas economicistas, agora estamos em queda.” Paulo Ribeiro

Paulo Ribeiro é transplantado renal e presidente do Grupo Desportivo de Transplantados em Portugal. Sofre de problemas renais desde criança mas “felizmente só entrei em hemodialise em 1995, com 21 anos de idade. Fiz hemodiálise e diálise peritoneal durante nove anos e meio. Não pude fazer o transplante mais cedo por causa da minha doença de base (Síndrome de Goodpasture) e outras complicações”, explica.

Paulo Ribeiro faz parte do grupo dos transplantados desde 31 de março de 2004.

“O transplantado, para além da medicação imunossupressora que tem que fazer sem falhas, tem de ir a consultas regulares. A periodicidade varia consoante os casos e o tempo do transplante.” Paulo Ribeiro assegura que, em Portugal, existem apoios para os transplantados, “essencialmente nos medicamentos e exames gratuitos inerentes ao transplante. Também temos transporte, caso seja preciso.”

Existem apoios mas o número de transplantes está a diminuir

Entre janeiro e maio deste ano houve 271 transplantes em Portugal, menos 23 do que em igual período do ano passado. Este é o valor mais baixo dos últimos quatro anos, desde 2009.

Os dados foram divulgados esta terça-feira pelo Instituto Português do Sangue e da Transplantação.

O aumento da idade do dador, a falta de transparência e as desigualdades na atribuição de incentivos financeiros à colheita de órgãos e transplantação são alguns dos motivos para a diminuição da atividade nos últimos anos.

 

Segundo o Instituto, o número de dadores em morte cerebral foi o mesmo nos primeiros cinco meses do ano (109), mas o número de órgãos com qualidade diminuiu 6%. Está relacionado com o aumento da média de idades dos dadores, que passou de 51,2 para 55,2 anos.

O número de órgãos colhidos passou de 335 em 2012 para 314 este ano, menos  21.

Ao contrário do que acontece com a transplantação geral, o número de dadores vivos de transplante renal aumentou em relação a 2012. Em 2013, fizeram-se mais seis transplantes do que nos primeiros cinco meses do ano anterior (21 no total).

Segundo a agência Lusa, em 2009, Portugal atingiu valores máximos ao nível dos transplantes, realizaram-se 928. Desde então, esse número tem vindo a diminuir e, no ano passado, fizeram-se 681 transplantes.

(Fotografia da internet)

(Fotografia da internet)

“O transplante não é a cura mas sim um tipo de tratamento que pretende que a qualidade de vida do doente se torne melhor. Infelizmente isto nem sempre acontece.” Paulo Ribeiro

Cultura de doação

Nem todas as pessoas estão preparadas para doar órgãos em vida. Paulo Ribeiro admite que “estamos, ainda, a dar os primeiros passos.” E explica: “só agora a nossa lei permite que, para além dos familiares diretos, os conjugues possam ser dadores.” No entanto, “ao nível do dador cadáver, toda a pessoa que morre de morte cerebral é potencial dadora. Ao contrário de outros países nos quais é necessário declarar essa vontade em vida.”

Paulo Ribeiro acredita que é possível ter uma vida estável depois de um transplante. “Deve apenas evitar atividades que possam pôr em causa a sobrevida do órgãos transplantado”, conta.

“Sentia necessidade de fazer desporto. Por esse motivo, ao ter conhecimento do GDTP, fui a uma reunião geral e gostei. Surgiu na minha vida um ano depois do meu transplante”, explica Paulo Ribeiro.

Os transplantados e o desporto

O GDTP – APD, Grupo Desportivo de Transplantados – Associação Promotora de Desporto, nasceu em Portugal por causa da necessidade de haver uma entidade que representasse os atletas transplantados nas competições internacionais, Jogos Mundiais e Europeus para Transplantados.

O grupo tem cerca de 50 sócios e está espalhado por todo o país. Não recebe qualquer tipo de apoio público ou privado. Subsistem com as quotas dos associados e das angariações que fazem para eventos específicos.

“Tentamos que as nossas atividades tenham poucos custos, pedindo espaços desportivos que não acarretem custos, pedindo apoios em géneros (águas e outros), cobrando um valor simbólico aos participantes e trabalhando com voluntários”, explica Paulo Ribeiro, o presidente do grupo.

 

GDTP subsiste graças à vontade dos associados

O Grupo Desportivo de Transplantados não tem sede própria, as reuniões são feitas em espaços cedidos pelos associados.

Em 1989, Portugal começou a participar em competições internacionais com atletas transplantados renais através da APIR – Associação Portuguesa de Insuficientes Renais.

“Quando não há apoios, são os próprios atletas, que têm poder económico, que suportam as despesas inerentes à participação” em jogos internacionais, conta Paulo Ribeiro.

Atualmente, o GDTP promove, também, ações de divulgação para incentivo ao desporto e exercício físico entre transplantados e candidatos a transplante. Organiza torneios e competições nacionais e cria equipas que possam representar o grupo tanto a nível nacional como internacional.

Paulo Ribeiro admite que faltam sócios, recursos e apoios ao grupo. Ainda assim, “conseguimos promover o convívio e o exercício físico e também temos conseguido ótimos resultados nas provas internacionais, onde já ganhámos medalhas em provas de ciclismo, natação e ténis.”

 “A mensagem que deixo a pessoas que já passaram ou vão passar por isto é que não desistam de viver e encarem a doença com naturalidade. Porque assim é mais fácil suportá-la, continuar a ter sonhos e concretizá-los.” Paulo Ribeiro

Patrícia Silva

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s