Em Foco

O fim de um Tabu ; «Papá és homossexual?»

«Questionou aos 8 anos: papá és homossexual? resposta: isso é importante para ti? respondeu: sim! Disse-lhe: quero que saibas que acima de tudo o papa ama-te incondicionalmente e que nada muda entre nós (…)expliquei que isso não fazia de mim pior, ou que isso iria fazer com com que a amasse menos.»

Alianças

 Provavelmente já se encontrou numa situação em que, enquanto descontraía com os seus amigos numa esplanada, um deles revela que é gay. Nos dias de hoje, essas revelações começam a tornar-se comuns,mas o mesmo não se aplica a revelações dentro do seio de um casal.Rodrigo*, 27 anos, esteve casado durante 3 anos com Rita*, onde nasceu Victor* de 3 anos. Durante um jantar, Rodrigo contou a Rita que se sentia atraído por pessoas do mesmo sexo :«não me respondeu quando lhe contei. Levamos uma semana sem tocar novamente no assunto. Fizemos durante essa semana a vida do casal mais normal do mundo. Ao fim desses dias, ela trouxe novamente o assunto, e disse-me que aceitava, percebia, e que podia ser normal a dada altura das nossas vidas descobrirmos que somos bissexuais. Neste em caso eu teria apenas que escolher se queria ou não ficar com ela. O que tornou tudo mais difícil ainda para mim» relembra Rodrigo.

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Por outro lado, Pedro Dias, de 67 anos, esteve casado por duas vezes. No seu primeiro casamento quando contou à sua esposa sobre a sua homossexualidade esta reagiu com : «tolerância e compreensão de verdadeira amiga com alguma incredulidade à mistura.». No entanto, a reação da sua segunda esposa foi diferente: « a segunda não contei. Veio a descobrir 5 anos depois de estarmos separados e fez disso uma tragédia grega. Depois passou-lhe!»

Ana Murta Ladeira, psicóloga , explica que «o casamento com heterossexuais acontece mais por razões sociais, porque a maioria já sabe que gosta de pessoas do mesmo sexo. Como a aceitação social ainda não é absoluta, existe ainda a tentativa de conseguir corresponder às expectativas de um casamento heterossexual»

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Casamentos como o deles, em que um dos cônjuges é heterossexual e o outro não, começaram a estudados por sociólogos americanos. No início da década de noventa, uma pesquisa conduzida pelo sociólogo Edward O. Laumann, da Universidade de Chicago, permitiu estimar que dois a quatro por cento das americanas estiveram, ou ainda estão, casadas com homens que têm contatos homossexuais. O estudo, intitulado Organização Social da Sexualidade, sugere, também, que 3,9% dos homens americanos casados tiveram sexo com outros homens, nos cinco anos anteriores ao inquérito.

O comportamento homossexual não foi sempre visto como errado. Em várias civilizações antigas da Ásia, África, Médio Oriente e América do Sul era considerado normal, ou era mesmo encorajado , como na Grécia, onde fazia parte do tecido social e das tradições. O motivo da mudança poderá ter como base a tradição judaico-cristã e as interpretações das suas escrituras : por necessidade de assegurar a linhagem, os povos israelitas, constantemente acossados e ameaçados por vários outros , tinham , com efeito, condenado o prazer e definido como pecado a homossexualidade.

O prazer oculto

A pressão da sociedade e da família levam muitos homens a casarem com mulheres, mesmo sentido-se atraídos por pessoas do mesmo sexo. Igor*, 42 anos, esteve casado 5 anos do qual nasceu uma filha com hoje 11 anos. O seu primeiro desejo por pessoas do mesmo sexo aconteceu aos 14 anos: « a atração era por ambos os sexos, senti-me estranho e sem perceber porque isso acontecia.». Ao contrário de Igor, Rodrigo, começou a sentir atração por pessoas do mesmo sexo mais tarde, aos 25 anos : « senti-me confuso, não queria acreditar que fosse possível estar a passar por isso. Passei pela fase de negação, não aceitei que o que estava a acontecer podia vir a destruir a relação ótima que tinha com a minha mulher.». Rodrigo desconhece o fator que lhe fez nascer este desejo por homensnem eu sei bem apontar um factor para isso. Nunca antes tinha sentido atraído por alguém do mesmo sexo. Nunca meti a minha opção sexual em causa. Aconteceu com aquela pessoa apenas.Porquê? Não sei.»

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As crianças

O estudo da Organização da Social da Sexualidade, refere que quando se chega perto das famílias com pais gays, é possível perceber que quase sempre o problema maior vem de fora – mesmo quando a relação dos pais com a sexualidade é confusa. Pedro Dias, tem 5 netos e explica que para os:«netos não foi preciso contar (a homossexualidade). Nasceramno seio dessa realidade, que nunca lhes foi escondida e para nenhum deles (são 5) é uma não questão merecedora de especial atenção: é como o avô é!».

Igor, pai de uma menina de 11 anos, recorda quando a filha o questionou sobre a sua homossexualidade:« Questionou aos 8 anos: papá és homossexual? resposta: isso é importante para ti? respondeu: sim! Disse-lhe: quero que saibas que acima de tudo o papa ama-te incondicionalmente e que nada muda entre nós e chorou muito. Depois acalmou quando lhe expliquei que isso não fazia de mim pior, ou que isso iria fazer com com que a amasse menos. Iria ama-la sempre, respeita-la.»

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Passado 2 dias depois de contar a sua homossexualidade, Igor passou vários dias de sufoco. No entanto, quando a filha foi de férias com a mãe e foi despedir-se dela, a filha surpreende-o: « papá eu sei. E papá vou amar-te sempre tal e qual como és. Chorei imenso, porque estava a precisar ouvir aquilo, senti-me o homem mais feliz do mundo, porque o melhor da minha vida é sem duvida nenhuma a minha Princesa e o amor incondicional que sinto por ela.».

A psicóloga, Ana Murta Ladeira, esclarece que « garantidamente para as crianças é melhor conversar sobre tudo, porque o nível de perceção é definitivamente maior do que aquele que os pais percebem. Logo a maioria das teorias defende que as crianças não devem ser salvaguardadas de pormenores do que se passa na vida dos pais.»

Depois de 1990 o homossexualismo foi retirado da Classificação Internacional de Doenças, publicada pela Organização Mundial de Saúde. As primeiras gerações de filhos de gays assumidos mostram que família é família.

* Os nomes  e as fotos apresentadas são fictícios, de forma a proteger as respetivas identidades.

Referências:

POESCHL, Gabrielle; VENÂNCIO, Joana ; COSTA, Daniel – Consequências da (não) Revelação da Homossexualidade e Preconceito Sexual. O ponto de vista das pessoas Homossexuais. Porto. Estudo apresentado à Universidade do Porto.

Imagens: Morguefile

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