Em Foco

Silêncio Ensurdecedor

“A evasão. Prende-se muito com a possibilidade de silêncio. Para mim o silêncio é muito importante. Ter silêncio é um grande privilégio. É uma coisa que tu não tens porque a tua cabeça está sempre, constantemente a pensar, e para ter silêncio absoluto tens de te levar ao limite, até à tua cabeça não querer pensar mais ou não ser capaz de pensar, a não ser no próximo passo”.Miguel Vasconcellos

Para muitos, escalar uma montanha de 4.810 m pode parecer loucura. E para muitos prende-se com a adrenalina. Para André e Miguel é mais do que isso. É um escape. Uma viagem ao limite do ser humano, onde aprender sobre nós próprios é essencial. Fugir à cidade, ao caos, às pessoas, estar no meio da natureza onde tudo o que se ouve é barulho de fundo. Estas são algumas das razões que levaram os dois jovens ao cume mais alto da Europa.

No final de junho de 2012 tiveram a oportunidade de escalar o Monte Branco, nos Alpes Franceses. Sem pensarem duas vezes, aceitaram a proposta, com vontade e curiosidade de quem quer descobrir o mundo pelos seus próprios pés.

São os dois professores de Educação Física, e a motivação de escalar apareceu na faculdade. Começaram instintivamente e foram tendo algumas aventuras. Tiveram o incentivo de um dos seus professores universitários, Rui Rosado. Que é, também, uma das grandes inspirações de ambos.

Saíram de Lisboa e 24 horas depois chegaram a Chamonix, a localidade mais conhecida junto ao Monte Branco, do lado francês. Na primeira semana estiveram apenas a treinar. “Durante os treinos fomos até ao Refuge de la Flegere, depois fomos para o Index. Estes são cumes pequeninos lá ao pé” conta André Serra. Durante a fase de treino foram também até à Aiguille du Midi, Mont Envers, Aiguille Argentiére e ainda a Aiguille du Tour.

Preparação exaustiva

Os treinos são uma fase importante para quem deseja alcançar o cume do Monte Branco. A adaptação à altitude é necessária. “A adaptação lá tem que ver com sucessivas tentativas. Ascensões de treino. Seja a cumes mais baixos. Seja a fazer corrida em montanha, que é muito útil. Foi o que nós fizemos. Essencialmente levas o corpo cada vez e progressivamente mais alto, fazendo mais esforço, e tentando permanecer em altitude o máximo tempo possível. E o que o corpo vai fazer é adaptar-se à pressão atmosférica diferente, vai adaptar-se ao tipo de esforço e vai passar a ser, metabolicamente, mais eficiente. Quando se vai fazer a tentativa de cume, de subir a montanha, o que acontece é que o corpo sofre muito menos. E uma vez que sofre menos, não só a escalada é muito mais agradável, como há mais hipóteses de sucesso. Muito mais”.

A preparação física e mental está sempre presente e existem muitas preocupações e receios. A maior preocupação de Miguel é não ser capaz. “A minha maior preocupação no início é não ser capaz. E isso é sempre um receio. Até que estás no meio da acção. E isso deixa de ser importante. Aí passas a sentir que és ou não és capaz. Passas a sentir, em vez de conjecturar. E eu tenho verdadeiro medo de não ter feito as coisas que quero fazer e isso assusta-me muito mais que tudo o resto”. Já para André, o maior receio é de deixar muita coisa por fazer e de não conseguir chegar ao local de partida. “Quando vou para este tipo de coisas, a minha principal preocupação é não chegar lá. Para mim é mais o receio de não chegar ao primeiro ponto. O nosso ponto de partida foi Chamonix. O meu principal receio foi não chegar aí, de acontecer alguma coisa durante a viagem. No caminho para lá fui o tempo toda a dizer que só queria lá chegar. A partir do momento em que lá chegámos, saiu-me um grande peso de cima dos ombros”.

Durante o período de aclimatação à altitude é que se pode ver a dificuldade da escalada em termos físicos. “Estás habituado a um tipo de esforço citadino. Não implica estares a subir. O esforço físico que fazes na cidade e o que fazes na montanha é completamente diferente. O período de aclimatação em termos físicos é duro. E o corpo ressente isso. Então esse período é muito importante e é o período mais difícil para nós. Depois chegas a um momento em que entras no estado de “flow” da coisa. Nem dás por isso. E isto, a mim, acontece-me em termos físicos e mentais” continuou André.

Fenómenos estranhos

 “Há fenómenos que nos são estranhos, e que sucedem em ambientes estranhos. E a montanha é um ambiente que se dá a muitos fenómenos estranhos. Por exemplo, seria muito mais expectável que tivesses muito mais medo quando visses a montanha à tua frente, mas a verdade é que é mesmo aí que o medo, ou se vai, ou te ganha. O que seria de esperar era ter medo no meio da acção. Quando estás na eminência da possibilidade de falhar, aí é que pode existir a presença de medo ou não e isso vai determinar tudo o resto” – Miguel Vasconcellos

Quem alguma vez se imaginou a escalar uma montanha, pode pensar que chegar ao topo é a melhor parte do percurso. Mas para os dois alpinistas o percurso é que importa. “Estar no topo da montanha é a parte de toda a viagem que eu sinto que aproveito menos. Eu sinto que não aproveito muito estar em cima da montanha, no topo. Primeiro porque sou um bocado preocupado com tudo. Um bocado stressado. Portanto, quando eu estou no topo estou já a pensar nas preocupações de quem desce. Segundo porque nós vamos atrás é do percurso. Nós gostamos é do percurso. Chegar ao topo é fazer meio percurso. Não é o topo que te motiva. É aquilo que tu ganhas no percurso, nas horas de caminhada. É aí que entras dentro da caixa. Quando chegas ao topo sais da caixa outra vez durante uns segundos. Voltas ao mundo. Apercebes-te de que chegaste lá acima e depois há que mergulhar outra vez para dentro e caminhar mais umas belas horas para baixo” afirma Miguel.

André Serra diz que “o mais importante é, sem dúvida o percurso”, mas a realidade é que nunca conseguiu desfrutar de estar no cume da montanha, porque sempre que chegava ao topo os restantes elementos da expedição nunca o deixaram experienciar o momento, porque o apressavam a voltar a descer. “Sempre que fui para o topo, basicamente, correram-me de lá enquanto estava a tentar apreciar a paisagem. Lá em cima é um bom sítio para se estar. A tua mente está mesmo noutro universo, sem dúvida. Mas como nunca me deixaram usufruir bem do momento, não o consigo descrever melhor”.

Esforço mental

Escalar uma montanha com quase 5km de altitude não é tarefa fácil para o corpo. Mas também não o é para a cabeça, e em muitas situações pode ser a cabeça e não o corpo a definir o sucesso ou não da escalada. “Para a cabeça já não há escape possível. Para o esforço físico podes preparar-te, e transformar-te ao ponto de seres capaz ou não. No ponto de vista mental, vais descobrir. Vais descobrir se és capaz. E és ou não és. Eu acho que só é possível manobrar o espírito até determinado ponto. Onde o teu espírito bloqueia, não é possível. Ou então demoras muito mais tempo a trabalhar o espírito. Eu acho que a cabeça é um fator mais crítico de sucesso do que a parte física” afirma Miguel.

Descansar é essencial. Como se dorme na montanha?

“Mal! Dorme-se mal! Aliás eu nem sei se se dorme na montanha! “Cochila-se” vá! Na montanha passa-se pelas brasas. É verdade que todas as noites em que estivemos em alta montanha foram absurdas e terríveis, exceptuando uma. Curiosamente foi a que dormimos mais alto de sempre. Foi na própria escalada ao Monte Branco que apanhámos uma bênção. Foi uma janela meteorológica, que era tão favorável que a noite foi mesmo absurda de agradável que foi. Estava quase calor. Estavam -5, talvez 7 ou 8 negativos”, descreve Miguel.

Seria de esperar que a dormida fosse em tendas, mas como Miguel explica “suponho que se possa levar tenda se quiseres. Mas na montanha tem tudo a ver com aquilo que tu podes levar às costas. Nós tínhamos vontade de levar tenda. Mas não tínhamos vontade de a levar às costas. E por isso não levámos. A tenda ficou sempre no campo base, na cidade. E então dormimos em bivaque, que é pernoitar ao ar livre. E é preciso ter vontade mesmo. Porque passas uma noite deitado, completamente fechado, só com a boca e o nariz de fora. E com a condensação da respiração, a zona do capuz à volta da boca e nariz, começa a ficar congelada. E estás de barriga para cima, e vai caindo neve. Se nevar então, é horrível. Depois tu estás num saco de bivaque, ou seja, à medida que a noite vai passando tu vais perdendo a temperatura. E há um limite. Que é o limite em quase que desistes de dormir. Estás só deitado à espera que venha o sol, ou melhor, a hora de te levantares. Raramente é com o sol que tu te levantas, normalmente é muito mais cedo. Há uma altura da noite em que dizes assim: “Já não consigo mais estar deitado. Eu preciso de andar para aquecer”.

O que não pode faltar na mochila

Para onde se quer que vá para fazer exercícios deste tipo existem algumas coisas essências que não podem faltar, mesmo que não se passe a noite. Frontal, Bússola e cartografia ou GPS, um kit de primeiros socorros e manta de emergência, material de escalada (corda, mosquetões) capacete, piolet e crampons (se for para um local com neve e  gelo). Muita água e um impermeável.

Se for passar alguma noite num local inóspito não se esqueça de levar um saco-de-cama, uma colchonete, luvas e dois pares de meias extra. Comida, um fogão portátil e botija de gás.

A água é muito importante, porque mesmo que esteja num local com neve, a ideia de derreter neve em água para beber não é a melhor solução. Miguel refere que muitas pessoas “não têm noção de qual é a proporção de neve que corresponde em água. O volume de neve é absurdo em relação à água porque aquilo é tudo ar. Ou seja, derretes um calhau grande de neve e tens uma chávena de chá. E tu pensas se é assim, imagina o tempo e o gás que gastas a ferver água. E tu na montanha não tens esse tempo, a não ser que estejas a escalar a partir de cinco mil metros, aí já tens outro tipo de tempo porque és obrigado a estar quieto. Ou então, tens de ter água. Na montanha também há muitas nascentes. As pessoas tendem a escalar de Verão ou Primavera justamente quando está a acontecer o degelo”. André alerta para o facto de não se saber o que pode estar misturado com a neve. “ Às vezes há pessoas que se aliviam na neve. Há animais que fazem a sua vida lá em cima. E se se vai beber neve lá em cima, pode-se apanhar bactérias. Mas também há pastilhas purificadoras, mas a água fica a saber a cloro”.

Já dizia o ditado: “As coisas más não acontecem só aos outros”.

“Quando estás a caminhar na montanha existe silêncio. Mas é um silêncio ensurdecedor, porque aquilo que ouves é a montanha, a natureza. E a natureza pode fazer muito barulho”  – Miguel Vasconcellos

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