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Os Pumas dos céus

“Eu digo sempre que não é preciso ser maluco para se trabalhar aqui, mas que ajuda, ajuda. Não acredito que nenhum dos militares consiga trabalhar aqui e suportar o que isto tem de bom e de mau sem gostar, realmente, disto. Salvar uma vida é indescritível, é isso que nos vai alimentando dia-a-dia.”  Rui Tavares | Recuperador Salvador

A Esquadra 751 da Força Aérea Portuguesa já salvou quase 3 mil vidas. Está preparada para o transporte de altas individualidades, mas é na busca e salvamento que é reconhecida. Tem quase 120 militares e bases no continente e nos arquipélagos. Estão em constante alerta, 24 horas por dia, 365 dias por ano. São estes os homens que resgataram do mar, ao fim de quase 60 horas, os seis homens do Virgem do Sameiro.

Trabalham “para que outros vivam”, é este o lema que os move. Portugal tem a segunda maior área de busca e salvamento a nível mundial, logo depois do Canadá.

A Esquadra 751 da Força Aérea Portuguesa, ou “Pumas”, como também são conhecidos, é uma das mais bem equipadas de todo o mundo. Na base aérea nº 6, no Montijo, em Lisboa, estão 12 helicópteros Merlim EH-101, a operar desde 2006. Seis são usados para busca e salvamento, dois para controlo e buscas de pescas e quatro para combate SAR, isto é, usados em terreno hostil. Estes aparelhos são considerados “topo de gama”, têm 3 motores e até 8.30 horas de autonomia.

“A gente está cá para que outros vivam, é isso mesmo, 24 horas por dia. É indescritível, não tem palavras, de vez em quando cai a lágrima ao olho.” Dário Cardoso | Operador de Sistemas

5 homens. 1 objetivo.

Estes homens vão aonde mais ninguém pode. São os bombeiros dos céus e a ajuda nas horas de maior aflição. Salvam vidas, presas por um fio.

“Como nós costumamos dizer somos a ponta do cabo para salvar a pessoa. Tudo tem de funcionar em pleno, a tripulação inteira. Estamos a falar do piloto e do co-piloto, do operador de sistemas, do recuperador salvador e do enfermeiro que vai a bordo para nos auxiliar”, explicou o militar Rui Tavares.

Rui Tavares tem 35 anos. Foi operador de sistemas mas em 2006 concorreu ao cargo de recuperador salvador, e conseguiu. Nadador salvador desde os 18 anos, sempre adorou desportos náuticos e desde cedo soube que era isto que queria fazer da vida.

“Sempre quis ser recuperador. O recuperador é a ponta do cabo, tem o primeiro impacto com a vítima e, claro, por causa disso está, obrigatoriamente, mais exposto ao perigo”, assegurou.

“Não há nada como ir buscar alguém ao mar e trazer essa pessoa para terra, é inigualável.” Henrique Fernandes | Co-Piloto

“Para que outros vivam” são precisos grandes sacrifícios

Henrique Fernandes tem 32 anos e é co-piloto na Esquadra 751. Sempre quis fazer busca e salvamento porque, garante, “não há nada como ir buscar alguém ao mar e trazer essa pessoa para terra, é inigualável.”

Ainda assim, admite que são precisos grandes sacrifícios, o maior de todos: estar longe da família. “Abdicamos muito da nossa vida particular para estar aqui. Passamos muito tempo nos Açores e na Madeira. Ou quando não estamos lá, estamos aqui (na base nº 6, no Montijo) de alerta”, explicou.

Rui Tavares, o recuperador, é da mesma opinião: “é um trabalho muito árduo. Exige muito do militar e das famílias. A família também sofre muito porque estamos muito ausentes e, para mim, isso é o pior nesta profissão.”

“Quando a gente salva uma vida parece que renasce, é uma sensação complexa para se explicar, só vivendo aquilo.” Rui Tavares | Recuperador Salvador

Em números: 2993 vidas salvas

“Não faço contas (individuais) e penso que nenhum de nós as faz. Os primeiros salvamentos são aqueles que mais simbolizam, por serem os primeiros, mas depois disso… não é “normal” o que fazemos mas…”, explicou Rui Tavares.

Não é “normal” ou, pelo menos, não é para toda a gente salvar vidas. Mas estes homens já estão habituados a isso. Já resgataram 2993 pessoas e os números vão crescendo sem que haja tempo para corrigir a placa que está mesmo à entrada da Esquadra.

 

“Quando a gente salva uma vida parece que renasce, é uma sensação complexa para se explicar, só vivendo aquilo”, assumiu o recuperador Tavares.

Dário Cardoso, o operador de sistemas de 34 anos, partilha com o colega o mesmo sentimento: “A gente está cá para que outros vivam, é isso mesmo, 24 horas por dia”, e acrescenta que “é indescritível, não tem palavras, de vez em quando cai a lágrima ao olho”.

As paredes são o espelho do sucesso

As paredes da Esquadra 751 testemunham o sucesso de cada resgate. Estão pintadas de coletes salva-vidas e de pedações de memórias de antigas vitórias.

“Normalmente não temos maus resultados, a gente vai lá e é para salvar. Correu sempre bem, até agora”, admitiu Dário Cardoso, com um sorriso no rosto.

“Estas paredes estão repletas de histórias e, para nós, o nosso troféu é o colete, normalmente. Ficamos com eles, colocamos a data, a tripulação, a distância e a embarcação em que se efetuou o salvamento”, explicou o recuperador Rui Tavares.

“É um preenchimento total. Salvar uma vida faz valer todo o sacrifício. Cada salvamento é um salvamento, mas todos valem a pena.” Dário Cardoso | Operador de Sistemas

O mediático salvamento dos homens do Virgem do Sameiro

Em 35 anos, um dos salvamentos mais mediáticos da Esquadra 751 aconteceu em 2011 quando seis pescadores ficaram presos numa balsa, em alto mar, durante mais de três dias.

Os homens do “Virgem do Sameiro”, que afundou em 15 minutos, foram resgatados com frio, fome e medo, mas vivos.

A tripulação que os conseguiu encontrar e trazer, a todos, sãos e salvos até terra, disse, na altura, ser “muito gratificante conseguir resgatar todos eles com vida”.

Salvar uma vida faz valer a pena

Sempre que soa um alerta, a tripulação tem 30 minutos, durante o dia, e 45 minutos, durante a noite, para levantar voo. As horas de treino semanais ajudam-nos a estarem, sempre, nas melhores condições físicas.

Apesar do perigo, estes “Pumas” dos céus afirmam que “é bom sentir medo ou nervosismo, quando não sentimos vamos muito à vontade e é assim que acontecem os acidentes”, disse Dário Cardoso, o operador de sistemas.

Estes homens lidam, quase diariamente, com o risco da morte mas, muitas vezes, sobretudo nos Açores, também assistem ao início de uma vida. São nove ilhas ligadas pelos céus e, já não é novidade, haverem nascimentos a bordo. São as ambulâncias dos céus.

“É um preenchimento total. Salvar uma vida faz valer todo o sacrifício. Cada salvamento é um salvamento, mas todos valem a pena”, admitiu Dário Cardoso.

São homens, pais de família e heróis. Os militares da Esquadra 751 vão continuar a trabalhar porque, segundo eles, “aquele que salva uma vida salva o mundo inteiro”, e não deixa de ser verdade…

Conheça a página da Esquadra 751 na internet

E no facebook

Vejam a reportagem:

Patrícia Silva

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