Entrevistas

À conversa com João Matos

« É muito fácil cair na rotina, no auto-elogio, acreditar que se um produto tem sucesso(…)»

Estreou-se no jornalismo, mas a arte de criar novas vidas falou mais alto. Já escreveu sucessos como Mundo Meu e adaptou outros como Floribella. Observador e criativo, João Matos pugna por ser justo e conciliador. Atualmente assina a nova novela da TVI « Mundo ao Contrário» .

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Começou o seu percurso no Jornalismo e depois passou para o Guionismo. A arte de informar e a arte de criar estão, de uma certa forma, ligadas?

Estão ligadas pela criatividade e pela capacidade de observar a realidade. Mas o foco é completamente diferente. Os jornalistas olham para os acontecimentos e querem reportá-los de imediato. Os guionistas observam-nos como matéria-prima para futuras histórias. A grande diferença que senti foi a abertura do olhar em relação ao mundo dos média. Como jornalista, tendia a estar mais focado nas notícias. Como guionista estou completamente aberto a tudo o que se passa.

Em 2001 apresentou a sua primeira sinopse à NBP que agora é Plural. Ainda se lembra da «cara» do seu primeiro «Bebé» ?

Chama-se “Fora de Jogo” e era uma série de 52 episódios. Ainda a tenho. Na altura disseram-me que estava demasiado adiantada para a época. Acho que continua a estar.

Já fez adaptações como Floribella e Rebelde Way. É mais estimulante criar um projeto de raiz ou adapta-lo à realidade portuguesa?

É muito mais estimulante criar um projeto de raiz. As adaptações só têm a vantagem de terem sido testadas noutro mercado. Mas são sempre mais complicadas de escrever. Uma obra cristaliza o momento em que é criada, o país, a cultura, as pessoas. Quando é transposta para outra realidade e outra era é necessário reconstrui-la. Quando desenvolvemos uma ideia original a história é nossa e está a ser escrita naquele momento, bebendo de tudo o que acontece à sua volta. Tende a ser mais rica.

A parceria com a sua mulher, Raquel Palermo é constante nos seus projetos. Consideram-se uma boa dupla do Guionismo, como Manuel Luís Goucha e Cristina Ferreira na apresentação?

Já escrevemos novelas, peças de teatro, telefilmes, séries e livros. Trabalhamos bem em dupla. Somos bastante críticos um do outro e isso ajuda a estarmos sempre alerta. Os nossos estilos complementam-se, embora sejam bastante diferentes. Nem sempre conseguimos trabalhar no mesmo projeto, mas quando isso acontece é excelente porque confiamos no trabalho um do outro e isso dá frutos.

Atualmente os núcleos das novelas são cada vez mais pequenos. Para um guionista é mais estimulante um elenco vasto ou um elenco reduzido?

Uma boa história é o que procura qualquer guionista. Se a história for boa e consistente conta-se apenas com duas pessoas. Ter mais núcleos permite ter mais histórias e abordar mais temas, o que é estimulante, mas também implica ter de controlar mais linhas de histórias, o que é mais difícil e leva a uma maior dispersão.

 Estreou a sua nova novela das 23 horas – Mundo ao Contrário. Onde foi beber inspiração para a criar?

A minha maior inspiração para criar esta novela foi o nosso país. A história dos irmãos Malta é um pouco a história do povo português, de como de um momento para o outro perdemos tudo aquilo que tínhamos por garantido. E de como poderemos ultrapassar as dificuldades descobrindo em nós mesmos as nossas qualidades, o que nos une e não o que nos separa, a nossa coragem e a nossa resiliência. É uma história sobre o herói que existe dentro de cada um. Uma história de descoberta, de esperança.

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Na novela são abordados temas polémicos não frequentes nas novelas como sexo e drogas. Sente que está a dar um novo passo na ficção nacional?

Estes temas já foram abordados em muitas novelas. Talvez a forma como se olha para eles em “Mundo ao Contrário” seja onde reside a diferença. A ideia de contar as histórias de droga e de sexo com alguma crueza e com um tom mais natural, menos floreado ou moralista é talvez a diferença principal. Nesse aspeto tentamos ter uma abordagem mais moderna e contemporânea, evitando os juízos de valor e contando as coisas como elas acontecessem.

Os elencos são cada vez mais jovens. Deixando para trás nomes como Lourdes Norberto, Luís Alberto, Natalina José entre muitos outros. Já não há espaço para o talento sénior?

Não concordo que haja uma tendência para elencos jovens. Há espaço para o talento, ponto. Todas as novelas são histórias de núcleos familiares. E nesses núcleos há espaço para todas as gerações. Em cada história procuram-se os melhores atores para vestirem as personagens. Pode dar-se o caso de em determinado momento haver histórias em que os núcleos seniores são menores. Mas é uma situação que tende sempre a equilibrar-se nos projetos seguintes.

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Não existem muitos cursos de Guionismo disponíveis em Portugal. Para quem quiser ser argumentista tem algum conselho?

Quem quer ser guionista tem de gostar de escrever e tem de ser um consumidor ávido de ficção audiovisual. Pode-se aprender a técnica, as contingências do trabalho e as regras de produção, mas ou se tem uma capacidade para criar, ou não se tem. É muito fácil cair na rotina, no auto-elogio, acreditar que se um produto tem sucesso comercial é sinal que é bom. O guionista não o deve fazer. Outra coisa importante é tentar sempre ter mais e mais formação. Existem cursos e master classes sempre a acontecer nas escolas profissionais e nas academias. São essenciais. E manter o espírito crítico e autocrítico.

Quem é o João Matos?

É uma pessoa que tenta ser honesta no trabalho e na vida e que procura sempre um novo desafio. Pugna por ser justo, conciliador. Gosta de escrever e de ler. Não tem tabus, mas tem valores firmes. Pensa sempre no futuro.

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