Entrevistas

À conversa com Sofia Sá da Bandeira

 «No meio dos atores existe, mais do que em outros meios, muito narcisismo.»

Atriz de Teatro, Televisão e Cinema. Sofia Sá da Bandeira já viveu várias vidas na ficção nacional, mas é no teatro que procura o ideal de perfeição ilusório e inalcansável. Oriunda de famílias que se destacaram nas artes e na guerra, desde cedo teve o gosto pela criação de mundos imaginários. Sensível e corajosa esta é Sofia Sá da Bandeira.

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É atriz, escritora e apresentadora. Qual das três «Sofias» a completa mais?

Depende muito do interesse do projeto em que estou envolvida, são campos bastante diferentes. Talvez, na escrita, encontre um prazer ampliado, uma sensação de maior liberdade, que me permite escutar melhor, desprender-me de tudo o que não quero, criar mundos imaginários através da linguagem, viver mil vidas num momento.

Faz cinema, teatro e televisão. Há algum género que gosta mais?

O teatro, pelo momento único. Pelo Aqui e Agora que apela a um querer fazer o melhor que se pode, a um ideal de perfeição ilusório e inalcançável. É uma tensão única e extraordinária. E, também, claro, pela relação direta com o público, pela energia que dele sai e que é em cada dia diferente.

É presença assídua das novelas da SIC e da RTP, mas ainda não passou pela TVI, porquê?

Por forças do “ Destino”…

Desempenhou na novela Dancin Days, Luísa, uma solteirona que só pensa em homens. Foi difícil construir esta personagem?

Foi interessante, porque não tem nada a ver comigo, e isso é sempre um desafio. Ao longo da vida, fui-me cruzando com algumas pessoas que vivem realmente assim, numa fuga para a frente, como quem foge de um confronto consigo próprio, pessoas que voam de relação em relação tentando apaziguar a sede com água salgada. É muito curioso. Deixa-me, uma e outra vez, espantada.

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Dancin Days é um remake de uma novela Brasileira co-produzida pela SIC e pela Globo. Acha importante esta parceria?

Acho que este tipo de parcerias é sempre enriquecedor. De certo modo rompem-se limites, há trocas de ideias, trocas culturais, novos desafios, novas linguagens que se podem ir criando em conjunto.

Portugal está no bom caminho da ficção?

Parece estar a investir-se mais na ficção em Portugal. E isso é bom para todos. Há tanto por fazer! E temos tão bons técnicos, tão bons atores. Gente com talento e cheia de vontade que precisa de trabalhar, tal como um desportista tem de se exercitar para poder ir dando o seu melhor. Só espero que a tenebrosa guerra de audiências não faça, em nome do lucro cego, descer o nível, quer dos argumentos quer das condições de trabalho de todos.

 As novelas da SIC conseguiram destronar a maquina de ficção da TVI. O que acha que contribuiu para esta quebra?

Ah! Isso, são segredos impenetráveis…

Numa entrevista, o ator Fernando Luís disse: « Nas novelas não se criam laços com as pessoas. As pessoas não trabalham para um objetivo comum, há muitas estrelas. As novelas são lutas de egos.»Concorda?

No meio dos atores existe, mais do que em outros meios, muito narcisismo. Nesse sentido, é por vezes, difícil criar laços verdadeiramente afetivos. Sempre achei que as “ estrelas” têm qualquer coisa de ridículo, de triste e pequenino. É como se não se dessem conta de que a Morte existe, de que tudo é efémero, e de que, por vezes, deveríamos fazer o voo da águia sobre as coisas… Mas, também se vão encontrando algumas pessoas fora de série, essas, acabam por ser sempre melhores atores e atrizes, não estagnam no seu eu pequenino, saem mais de si próprios, têm mais empatia. Isso ajuda muito, quer a criar personagens, quer a criar relações de amizade mais interessantes e genuínas.

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Já fez drama e comédia. Há algum registo que goste mais de representar?

Uma vez mais, depende do projeto. Ultimamente tenho-me divertido com o registo de comédia, que em última análise, acaba por ser muitas vezes dramático.

Quem é a Sofia Sá da Bandeira?

Se soubesse quem sou, seria rara. É uma questão para a qual não temos uma resposta, até porque não somos uma coisa acabada. Acho que vamos sabendo quem somos à medida que as situações nos vão desafiando. Vou conhecendo a minha sensibilidade quando me comovo com isto ou aquilo, conheço a minha coragem quando me posiciono face a uma situação que sinto como injusta. Ser é, para mim, ir-se sendo.

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