Lisboa num só dia

Mouraria: A manta de retalhos Lisboeta

A Mouraria, ou Bairro dos Mouros, é um dos mais típicos bairros lisboetas. É um bairro secular que sempre teve na história a marca da interculturalidade. É feito de fado, de sabores, de saberes e de património, mas sobretudo é feito de pessoas que garantem estar “em casa e em família”.

O bairro da Mouraria

Ao fundo da rua, ainda antes de entrar na calçada irregular que leva ao mais conhecido largo do Bairro, o largo da Severa, já se faziam ouvir os primeiros ritmos, facilmente identificáveis de tão nossos serem. “Sou latino, tenho a mania da briga… por mais que esconda e não diga, choro um bocado a cantar”… era fado.

Número 32. Porta verde, pequena e de madeira. Em cima lia-se um cartaz que dizia “Os Amigos da Severa”, ao lado, o desenho de uma guitarra portuguesa. Lá dentro, só duas pessoas, uma de cada lado do balcão. Nos pouco mais de 10m2 sobressaía a figura imponente de Nossa Senhora de Fátima, com terços nas mãos e flores aos pés, mesmo em cima do curto balcão. Apesar de pequeno, a riqueza do espaço é tanta que enche qualquer vista: cartazes de antigos espetáculos, fotografias de conhecidas caras do fado, algumas assinadas pelos próprios e fotografias de clientes que, mesmo do outro lado do mundo, fazem questão de comprovar (enviando a foto) que a Ginjinha “d’Os Amigos da Severa” chegou em boas condições. Flores, figuras de barro, um cascol de Portugal, umas luvas de boxe dos EUA e, a um canto, a árvore de Natal que vai ficando por lá, de ano para ano. A música é sempre a mesma: fado.

“Já viu a minha Nossa Senhora? Se tirar fotos apanhe-me a mim e a ela ao lado”, adianta, com entusiasmo, António Pais, o António da Severa como é conhecido no bairro. É dono desta taberna há 37 anos, desde 1976.

“Porque é que só cá tenho um cliente? Porque as coisas agora estão mal, há falta de dinheiro, é dia de semana e o tempo está de chuva. Agora aparecem aqui meia dúzia de pessoas e já é muito, mas temos de ir vivendo com a sorte que temos.” Mesmo assim, “de vez em quando a casa enche, o Fernando Maurício e a Severa cantaram aqui e, às vezes, ainda acontece aqui o fado”, respondeu António, de 59 anos. É natural da Beira Alta mas vive na capital desde os dez anos.

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“A Mouraria é um bairro absolutamente tradicional mas com grande força para andar para a frente. É um bairro simpático, com gente de quem gosto muito” – Luís Thomar

Mouraria, berço do fado

A taberna “Os Amigos da Severa” é o único espaço onde se ouve o fado na Mouraria. Um paradoxo, uma vez que foi aqui que nasceu a música mais portuguesa de Portugal.

Maria Severa Onofriana foi a primeira fadista portuguesa e é considerada a mítica fundadora do fado. Nasceu na Madragoa mas sempre viveu na Mouraria. Era prostituta e cantava o fado. Ficou conhecida pela novela “A Severa”, de Júlio Dantas, que se tornou no primeiro filme sonoro português.

Já no século XX, nasceu na casa em frente à da Severa, aquele que é considerado o “rei do fado da Mouraria”, Fernando Maurício.

Ainda nesta rua, a Rua do Capelão, numa casa cor-de-rosa cresceu Mariza, a mais internacional fadista portuguesa dos dias de hoje.

Museu da Severa

A Rua do Capelão faz parte do retrato do fado nacional. Por essa razão está quase a abrir portas o Museu da Severa, precisamente na casa onde viveu Maria Severa Onofriana.

“O fado faz parte da minha vida, agora é património imaterial da Humanidade e é um orgulho. Nesta taberna há sempre música, é pequena mas vem cá muita gente, é famosa, ganhou um prémio da Europa de qualidade e a estrela de ouro internacional. A Nossa Senhora está a abençoá-la e a abençoar quem por cá passa”, garantiu orgulhosamente o António da Severa.

Do lado de cá do balcão estava Luís Thomar. Mais do que cliente habitual, é amigo de longa data. Tem 58 anos, foi ator e correu mundo. Mas acaba sempre por vir parar à Mouraria. “Venho cá todos os dias antes de ir para casa. Chego aqui e bebo duas ou três meias taças de vinho. O António é uma pessoa realmente extraordinária, é meu amigo”, disse com ar sério mas tom descontraído.

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“Esta é a minha casa, é a nossa casa. Somos uma grande família. É um bairro feito de pessoas, é especial. Mas só quem cá passa é que consegue perceber isso, não se explica, sente-se” – António Pais

Uma tabacaria especial

Na porta ao lado, Arminda Almeida entretém-se a costurar rendas nas toalhas de mesa e nos panos de cozinha. Natural de Boassas, uma aldeia do distrito de Viseu, tem 74 anos mas vive na Mouraria desde os seis.

Distraída com as rendas, vai contando algumas das histórias que lhe marcaram a vida. Começou a costurar bem cedo  e trabalhou em casas de costura profissionais até aos 24 anos. Depois de ser mãe, comprou a tabacaria da Rua da Mouraria onde esteve durante mais de 40 anos.

“Vim para este sítio há 5 anos. O prédio onde eu estava teve de ir para obras e mandaram-me para aqui durante um ano e meio, supostamente é provisório mas já cá estou há muito tempo. A coisa está preta para se estar aqui neste buraco, não há negócio”, desabafou Arminda, sem nunca parar de costurar.

Mais do que jornais, revistas e tabaco, esta tabacaria da Mouraria tem, a cobrir as quatro paredes, toalhas de mesa e panos de louça rendados.

Arminda ficou viúva no ano passado, vive sozinha e espera agora o final das obras para poder regressar ao seu “cantinho”, como lhe chama.

Uma grande pequena família

José Brás entrou na tabacaria para comprar aquilo que lhe mata o único vício que tem: tabaco. Na Mouraria, quase toda a gente se cumprimenta pelo nome. Costume típico das pequenas aldeias que ainda perdura num bairro cheio de gentes.

“Aqui há pessoas de todo o mundo, mas é como se diz ‘primeiro estranha-se, depois entranha-se’. Costumo dizer que estamos a pagar a conta, nós colonizamos e agora somos colonizados, é uma chatice”. José Brás tem 47 anos, nasceu e cresceu na Mouraria. Tem opinião formada sobre a miscelânea de nacionalidades que existe no bairro: “eles não chateiam ninguém, integram-se perfeitamente e até fomentam uma micro economia que possa haver aqui. São pessoas acessíveis, até eu já fiz amizade com meia dúzia deles”.

Nuno Franco tem 54 anos, não nasceu no bairro mas vive na Mouraria há 35 anos. Também ele tem feito várias amizades com gentes dos quatro cantos do mundo. “De facto há um ambiente multicultural muito acentuado por via das vivências de quem aqui está. Os modos, os hábitos, os comeres, os aromas, os sabores e saberes estão cá todos”, atesta.

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“Se me disserem: vais para a tua aldeia, eu vou a correr. Mas se me disserem: vais para outro lado, eu digo logo que não. Vou para a Mouraria. É a minha casa, portanto é como lhe digo, a Mouraria para mim é tudo. Gosto mesmo” – Arminda Almeida

As Mourarias dentro da Mouraria

A Mouraria é um bairro secular, com 900 anos de história. Depois da reconquista Cristã, D. Afonso Henriques dividiu esta zona em três partes distintas. Nuno Franco, que está à frente do projeto ‘Renovar a Mouraria’, explica: “a zona do Castelo de São Jorge foi ocupada pelos cristãos, era lá que estava o Governo, viviam nas melhores condições. Os judeus foram colocados nos bairros do Castelo, uma encosta mais solarenga e agradável. Os mouros foram confinados a esta encosta virada para norte e, por isso, mais fria e ventosa.”

O Bairro dos Mouros, como também é conhecido, tem 4.600 habitantes recenseados, mas  há ainda muita gente que não consta dos registos.

“Este é o primeiro bairro de Lisboa mas foi esquecido durante épocas. Tem sido estigmatizado de uma forma perturbadora mas agora, felizmente, as coisas estão a mudar. A Mouraria está a ser renovada”, acrescentou Nuno Franco.

‘Renovar a Mouraria’

O Projeto ‘Renovar a Mouraria’ foi criado por moradores atentos e preocupados que vivem no bairro. “Em 2008 demos o ‘grito do Ipiranga’ e dissemos ‘basta’. Fizemos um manifesto e nesse mesmo ano surgiu a associação. No início algumas pessoas pensavam que estávamos à procura de tachos, mas rapidamente perceberam que estamos aqui para ajudar”, esclareceu Nuno Franco, mediador comunitário da associação. É ele quem anda nas ruas, ouve os moradores, regista os problemas e os encaminha para que se resolvam.

Duas funcionárias encarregam-se de manter a porta da associação aberta. Este espaço existe só há três meses. “Antes disso estivemos num quinto andar de um prédio, mas era quase inacessível à maioria da população. E no início reuníamos em cafés e nas casas uns dos outros. É possível. Começámos dois, hoje no núcleo duro de trabalho estamos 20 pessoas”, disse Nuno, relembrando os primeiros anos do projeto.

No espaço da associação ‘Renovar a Mouraria’ oferecem-se aulas de alfabetização para adultos e cursos de português para estrangeiros. Dá-se apoio ao cidadão e explicações para os mais novos. Aulas de ballet e guitarra, workshops para avós, pais e netos, espetáculos, tertúlias, sessões de cinema, debates, palestras e consultas médicas gratuitas, tudo isto faz parte deste projeto.

Um bairro multicultural mas seguro

Os caminhos entrecruzados, as ruelas e as calçadas da Mouraria estão marcadas pelas gentes que cá vivem ou viveram e por quem cá passa. São pessoas que vão deixando pedaços de cultura, de património, de saber e de sabor.

Apesar disso, ninguém aqui parece ter medo do vizinho do lado. “Não há medo nenhum, é um bairro completamente seguro. É certo que temos alguns problemas com tráfico de droga, mas essas pessoas só fazem mesmo isso, não fazem mal a ninguém”, garantiu Nuno Franco, reforçando a ideia de que o projeto ‘Renovar a Mouraria’ é uma casa de porta aberta, sempre disponível para dar apoio a todas as pessoas.

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“É um bairro com um património riquíssimo. Acredito que o futuro está a ser construído por todos nós, pela associação e por cada morador. Tudo isto constrói o futuro deste bairro” – Nuno Franco

A Mouraria é a manta de retalhos lisboeta. Neste labirinto de ruelas e culturas o que sobressai é a simplicidade com que toda a gente se olha e se cumprimenta. Parecem ser todos da mesma família. É um bairro de vidas e caminhos entrecruzados mas, como disse o António da Severa “só quem cá passa é que consegue perceber isso, não se explica, sente-se”.

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“É uma grande pequena família. Com tudo o que uma grande pequena família tem de mau, de bom e de assim assim. Toda a gente se conhece e se ajuda e assim vale a pena viver” – José Brás

Patrícia Silva

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