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Noite lisboeta com santa vizinhança

Os limites de horário impostos pela Câmara Municipal de Lisboa aos bares e associações do Bairro Alto têm sido alvo de polémica. Proprietários e moradores estão em pé de guerra. Enquanto dura o impasse, os noctívagos deixam o Bairro nas horas de fecho e descem para os estabelecimentos do Cais do Sodré. Em plena zona de vida noturna está construída a Igreja de S. Paulo que tem aprendido, ao longo dos tempos, a conviver com as várias facetas da boémia.

Uma das zonas lisboetas com mais vida noturna fica em plena rua da igreja de S. Paulo(Fotografia do site: cidadanialx.blogspot.com)

Uma das zonas lisboetas com mais vida noturna fica em plena rua da igreja de S. Paulo
(Fotografia do site: cidadanialx.blogspot.com)

“O Largo aqui à frente da igreja sempre foi muito pacato, era um ponto de encontro e de convívio. Mas agora não. Está transformado num balde de miséria”, desabafou o Padre Xavier Félix que, do alto dos seus 88 anos, já viu muita coisa. Foi ordenado há 62 anos e está na paróquia de S. Paulo há 35. Lembra, com saudade, os tempos em que toda a gente saía à noite sem medo: “agora toda a gente foge daqui. As pessoas da noite vêm lá de cima e juntam-se todas nesta zona. Sempre houve prostituição e álcool, mas agora há mais e também há mais droga e muitos sem-abrigo que passam os dias a pedir esmola”.

O barulho e as rixas são outros dos problemas apontados por este padre nortenho que salienta, ainda, que a Câmara Municipal de Lisboa “tem feito um esforço para manter a zona limpa mas, mesmo assim, as ruas ficam cheias de garrafas e de copos. Já para não falar da falta de casas de banho públicas, logo já se sabe o que acontece, é uma vergonha”.

A dura missão de evangelizar

O padre Félix, bem conhecido nesta zona histórica da cosmopolita Lisboa, garantiu que há associações de apoio aos sem-abrigo, às prostitutas e aos drogados, mas que nem sempre estas pessoas querem ser ajudadas. “Caíram em vícios que não largam. Pode haver quem os apoie e a gente pode falar com eles, mesmo eu falo, mas eles ficam na mesma, está entranhado, alguns andam nisto durante tantos anos que acabam por morrer cedo”, acrescentou.

O padre Xavier Félix é de Viseu mas está nesta paróquia há 35 anos

O padre Xavier Félix é de Viseu mas está nesta paróquia há 35 anos

Segundo o pároco, são cada vez mais os imigrantes brasileiros ou de leste que frequentam o Cais do Sodré, “anda tudo na boémia, bebem muito vinho… deve estar barato por aqui”, disse, em tom de piada, o pároco Xavier.

A histórica igreja de S. Paulo

A igreja de S. Paulo está situada, precisamente, a meio de uma das ruas com mais vida noturna da capital. É uma das poucas no país que não fecha à hora de almoço, mantém as portas abertas das sete horas da manhã às sete da tarde. “Normalmente as igrejas fecham à hora do almoço ou durante a tarde, mas esta está sempre aberta. Há uns anos chegaram a roubar algumas esmolas ou imagens, porque naquela altura eram muito valiosas. Mas agora as coisas desvalorizaram e a caixa das esmolas está quase vazia, já não vale a pena”, assegurou o padre.

Um templo por baixo da igreja

A igreja e o largo de S. Paulo são, também, um dos melhores exemplares de arquitetura pombalina da cidade. O edifício foi abalado em 1755 pelo terramoto e pelo incêndio e maremoto que lhe seguiram, mas foi reconstruído em 1768. Ergueu-se sobre o anterior templo e, por essa razão, quando se fizeram escavações há 25 anos, foram encontrados os ossos de um padre que foi sepultado por baixo do sítio onde está, atualmente, o altar e algumas pedras que terão servido de pias batismais. “Desde essa altura, há aqui uma porta que dá acesso à parte debaixo da igreja, mas agora aquilo não passa de um espaço amplo, vazio e com um lago logo à entrada, é preciso ir para lá de galochas”, disse o sacerdote.

O padre Félix acredita que o que torna o edifício especial são os altares de pedra trabalhada e as pinturas que cobrem todo o teto da igreja. Este teto tem uma área total de 414m2 e foi restaurado, com donativos de particulares, entre 2007 e 2009.

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“O que interessa é o presente, o futuro Deus dará”

Xavier Félix gosta de viver no presente e acredita que enquanto houver pessoas que “trabalhem com dedicação e nobreza as coisas vão-se mantendo mais ou menos bem. O que interessa é o presente, o futuro Deus dará”.

Resta, também, saber como vai ficar o futuro dos proprietários dos estabelecimentos noturnos, sobretudo do Bairro Alto, que desde que a Câmara se aliou à maioria dos moradores – que reclamavam por causa do barulho durante a noite – se veem obrigados a fechar portas mais cedo e, com isso, acabam por perder clientes.

Patrícia Silva

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