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Para quando um Obama português?

Portugal diz-se um país desenvolvido, mas a prova é, que no século XXI, este pequeno país da cauda da Europa tem diversos complexos e preconceitos que aparentemente estão ultrapassados, mas que depois de mais de 100 anos de história da República, ainda são tabu.

Um deles é a presença de negros em cargos importantes em Portugal, principalmente em posições ligadas ao estado. Depois de António Costa afastar a possibilidade da candidatura ao comando do Partido Socialista, será para quando o aparecimento do primeiro Obama português?

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística relativos aos últimos Censos 2009, vivem em Portugal 358515 pessoas nascidas em países africanos. Muitas destas pessoas já estão em Portugal desde o 25 de Abril, e do fim da guerra colonial, o que, com o consequente desmembramento das famílias, aumenta este número para mais de 1 milhão de pessoas com origens em África. Pode parecer um número pequeno, mas a verdade é que neste momento em Portugal, mais de 10% da população é de origem africana.

País de preconceito ou apenas falta de oportunidade?

Portugal demorou mais de 30 anos a ter uma mulher a presidir à Assembleia da República, e ainda está à espera do primeiro negro a ser primeiro-ministro, ou ter outro qualquer cargo em ministérios e secretarias de estado. Sobre este tema pode e deve-se colocar algumas questões que ainda são tabu e que os portugueses hesitam em abordar com clareza: Porque é que nenhum negro se candidata a eleições? Teria o apoio de algum partido político? E os portugueses, votariam nele? Será que algum dia acontecerá?

Questionadas algumas dezenas de pessoas, foram recolhidas algumas opiniões interessantes. Quando questionadas acerca de um possível voto num negro, todos os inquiridos responderam prontamente que “sim”, porém a curiosidade pôs-se quando a pergunta teve a ver com o o facto de até hoje nunca ter acontecido.

A estudante Alexandra Santos falou em “descriminação” enquanto, Bruno Gomes, enfermeiro, foi mais além e afirmou que ainda não houve oportunidade “porque nenhum dos partidos centrais ainda apostou num candidato negro. E isto porque em termos de estudo político, considero que haja a ideia de que grande parte da população votante até agora, ou seja, as gerações mais velhas, eram ainda pessoas que viveram as colónias ultramarinas e a guerra do ultramar. Isso em termos políticos, provavelmente leva a algum receio na proposição de um candidato negro, no sentido em que esses eleitores possam associar a raça ainda a questões históricas, existindo à partida alguma descriminação do candidato pela questão racial. No entanto, penso que estará para breve essa mudança, pois começamos a ter alguns politicos com algum visibilidade para assumirem lugares de liderança partidária, sem serem puramente caucasianos, como seja o caso de António Costa”.

Buba Bubacar, estudante, e africano, fala em descriminação, mas não só em relação a raças. “Eu acho que há um grande preconceito em relação a isso… Apesar do racismo ser muito disfarçado e camuflado, a raça negra nao é associada a inteligência…”, salientou Bubacar, que acredita também no que Sérgio Antunes, professor, evidencia: “Acho que é algo parecido como as mulheres. Antes não havia quase nenhuma e aos poucos vai aumentando. Antigamente a sociedade era comandada somente pelos homens. Essa mentalidade vai mudando aos poucos.

Nilza é exceção

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Nilza de Sena é eleita pelo circulo eleitoral de Coimbra
Foto: Facebook

Na Assembleia da República existe apenas uma deputada de cor negra, a Dra. Nilza de Sena, deputada do PSD, eleita pelo circulo eleitoral de Coimbra. O que é curioso é que numa época em que Portugal é Governado pelo Fundo Monetário Internacional e pela Troika, o líder da organização mundial seja efectivamente, Abebe Selassie, um negro.

A força dos negros não vem de hoje, nem é uma moda que começou com Barack Obama. O líder americano veio na verdade, abrir provavelmente portas que estariam fechadas e que centenas de africanos e afro-descendentes tentaram abrir durante muitos anos, por todo o mundo. Conhece muitos nomes de africanos ou afro-descendentes que conquistaram lugares de chefia, por esse mundo fora?

SHAKA ZULU – 1818
Ao assumir a chefia sobre a tribo zulu, transforma a etnia em um império. Para isso, conquista diversas tribos, em uma campanha que inspira comparações com Alexandre, o Grande. No momento em que é assassinado, Shaka (1778-1828) governa cerca de 250 mil pessoas.

HARRIET TUBMAN – 1861
A ex-cativa (1820-1913) é a primeira mulher a liderar tropas americanas. Durante a Guerra Civil, ela comanda uma ação militar de resgate, que consegue libertar 750 escravos das mãos da Confederação. A operação lhe rende o apelido de “Moisés dos negros”.

KOFFI ANNAN – 1997
Nascido em Gana, termina os estudos nos Estados Unidos. Começa a trabalhar na Organização das Nações Unidas em 1962. Em 1997, entra para a História como o primeiro secretário-geral negro da entidade, cargo que deixa em 2007.

STANLEY O’NEAL – 2002
Nunca antes um afro-americano tinha dirigido um grande banco de Wall Street. O’Neal assume o Merril Lynch e só se afasta em 2007, após a empresa perder mais de 8 bilhões de
dólares em créditos.

Para além destes poderia-se falar ainda de John Ricard Archer (Inglaterra), Kwame Nkrumah (Gana), Henrique do Haiti (Haiti), e agora Barack Obama nos Estados Unidos.

Fontes

http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/forca-negra-478117.shtml

http://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/Biografia.aspx?BID=4326

https://www.facebook.com/nilza.desena

Parece que, mesmo com a mistural cultural e racial que Portugal hoje tem não estará para tão cedo o primeiro Obama Português. Faltam mudar mentalidades, falta quebrar tabus e hipocrisias sociais. Portugal demorou dezenas de anos a dar direitos às mulheres e demorará outros tantos a aceitar de igual forma estrangeiros, raças, cores, religiões, opções sexuais, e tudo o que seja alguma diferença que o ser humano, por natureza, tem dificuldade em respeitar.

Se tiver curiosidade em saber mais sobre a história dos africanos e afro-descendentes na politica, veja este livro:

http://books.google.pt/books/about/Negros_e_pol%C3%ADtica_1888_1937.html?id=chfWqRDa3soC&redir_esc=y

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