Fora do jogo

O desporto português “está bem é na caminha”!

“De manhã está-se bem é na caminha”. Esta é provavelmente a frase associada ao desporto português mais famosa dos últimos anos. E talvez reflita bem o estado em que o desporto nacional está a entrar. Ainda estamos a 3 anos dos próximos Jogos Olímpicos, e já Vicente Moura, presidente do Comité Olímpico Português, afirma que “não vamos a tempo”.

A verdade é que o desporto nacional vive um pouco do que toda a conjuntura sócio-económica vive. A única exceção é o sucesso do futebol profissional, que “ofusca” os responsáveis, para onde está o grande problema da formação desportiva em Portugal:  a formação e potencialização dos jovens talentos.

Onde andam os talentos?

Portugal tem hoje, mais do que nunca, uma mistura de nacionalidades, raças e culturas que povoa a comunidade infantil. A pergunta que se coloca é, quanto desse potencial humano está a ser explorado? Quantos treinadores e clubes de formação perdem tempo nas escolas à procura dos miúdos de especial talento? Quantas horas por ano?

A resposta é: Poucas, ou quase nenhumas! Problema maior está principalmente nas modalidades ditas amadoras, onde Portugal tem desinvestido significativamente e onde os resultados internacionais são cada vez mais desanimadores. Portugal até está em 7º lugar do Ranking FIFA, mas se olharmos para a 2ª modalidade com mais praticantes, o basquetebol, vemos que a nossa seleção portuguesa apenas é 44ª do ranking mundial.

Quando se pega nestes resultados é quase obrigatório fazer duas comparações, que deviam ser exemplos, de como investir/gerir um sistema desportivo de formação que permita, com projetos de longo prazo, obter resultados internacionais de relevo: O sistema desportivo de Espanha, e o modelo de educação/desporto dos Estados Unidos da América.

Espanha desde 1992

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Rafael Nadal – Open Tokio 2010
Foto: Wikipedia

Começando por nuestros hermanos, é preciso voltar atrás no tempo 21 anos. Em 1992 Barcelona recebeu os Jogos Olímpicos e em 1986, assim que o presidente do COI, o Sr. Juan Antonio Samaranch, pronunciou essas palavras inesquecíveis que estão gravadas no coração de muitos barcelonenses “A la ville de…Barcelona” assinalando a atribuição da organização à cidade Espanhola que o Governo partiu para um investimento nunca antes visto.

Então mas como é que hoje, a Espanha tem os resultados desportivos que tem, e o que é que os Jogos Olímpicos de 92 têm a ver com isto?

Os jovens/adultos que hoje são os grandes atletas do desporto espanhol, eram crianças de 5/6/7 anos, e iniciaram a sua prática desportiva usufruindo precisamente das grandes infraestruturas construídas, da qualidade dos técnicos contratados pelas federações espanholas (muitos provenientes do leste europeu), e de um sistema educacional que foi moldado para permitir que as crianças pudessem estudar e praticar desporto sem conflito de horários, nem sobrecargas exageradas.

Por exemplo, uma criança em Espanha tem um horário escolar das 8:30 às 16:30, tendo entre as 16:30 e as 18:00 um período de estudo acompanhado na escola (que permite tirar dúvidas, fazer trabalhos de casa e estudar matérias) e logo de seguida entre as 18:00 e as 20:00 têm 2 horas de treino da modalidade. Um aluno português tem aulas das 8:30 às 18:30, tem o seu treino (apenas 3 vezes por semana) das 19:30 às 21:00 e já não tem tempo de estudo e descanso suficientes.

Isto provoca desgaste acumulado nas crianças, desgaste acumulado nas famílias e pais, aumenta o insucesso escolar e por consequência o abandono desportivo. Para além disso, o volume de treino de um jovem português é de cerca de 4/5 horas de treino semanais, enquanto um jovem espanhol treina em média 10 horas. Isto faz realmente diferença e por isso o desporto espanhol está nos tops europeus de todas as modalidades em que compete nos escalões jovens, e por consequência consegue, ano após anos, geração após geração, lançar equipas séniores competitivas.

Rafael Nadal (ténis), Juan Carlos Navarro e Pau Gasol (Basquetebol), Pedro Gil (Hóquei em patins), Canellas (andebol) são alguns dos exemplos de atletas de outras modalidades que não o futebol que são referencias de nível internacional. Admirem-se se daqui por 20 anos o Reino Unido, especialmente a Inglaterra, não for uma superpotência desportiva mundial, devido à organização dos Jogos 2012.

Estatuto Estudante/Atleta americano

Muito se fala em Portugal sobre o estatuto de estudante atleta que é dado a meia dúzia de privilegiados que para o obterem têm de obedecer a um sem número de critérios. Ou seja? Praticamente impossível ser estudante do ensino superior e atleta de competição em simultâneo.

Lebron James - Jogador dos Miami HeatFoto: Wikipedia

Lebron James – Jogador dos Miami Heat
Foto: Wikipedia

Nos Estados Unidos o sistema escolar está articulado com o sistema desportivo, procurando e promovendo não só os bons alunos, não só os bons atletas mas a combinação de ambos. As bolsas atribuídas aos jovens com maior aptidão para um desporto (e não só) fazem com que os estudantes/atletas não se descuidem em nenhuma das atividades. Isto faz com que um bom atleta com más notas, ou um mau atleta com excelentes notas não tenham entrada garantida em faculdades que funcionem com programas de bolsas desportivas.

Imaginemos por exemplo em Portugal. Um aluno com uma média de 13, mas um soberbo jogador de andebol, teria uma bolsa de estudos de uma faculdade que envolvia um programa de andebol e tivesse o curso da área de preferência do jovem. A entrada nos campeonatos profissionais só poderia acontecer proveniente do ensino superior. Imagina isto em Portugal? Provavelmente nunca.

O sistema universitário americano é competitivo e é visto como uma preparação para o mercado de trabalho (onde o aluno tem de cumprir regras, horários e tarefas), ou para uma carreira desportiva (onde o aluno tem treinar no máximo da exigência, cumprir requisitos e ter performance desportiva). Um jogo do campeonato universitário de basquetebol americano tem mais espetadores do que um jogo de duas equipas de meio da tabela do futebol profissional em Portugal. Mais, os jogos são transmitidos em direto e vistos por milhões de pessoas. Nos Estados Unidos não há clubes! Os atletas jogam pelas equipas das escolas e posteriormente das faculdades.

Em Portugal, escolas, universidades, clubes e entidades desportivas estão de costas voltadas e esta é uma solução que provavelmente nunca será implementada em Portugal, e, se fosse, seria um processo que levaria mais de duas décadas a ser implementado.

Algum destes sistemas funcionaria em Portugal?

Provavelmente não. Portugal não tem cultura desportiva nem social para moldar os seus interesses na vertente desportiva ou de formação complementar ao estudo. É muito importante que as crianças e jovens tenham estímulos de sacrificio, trabalho de equipa, cooperação, superação, rigor, etc, que não têm apenas com as curtas e por vezes desinteressantes matérias leccionadas no nosso sistema de ensino.

O modelo mais fácil a implementar seria o espanhol, mas mesmo esse, teria de mudar muitas mentalidades para se implementar.

A perspectiva profissional também ajuda. Em Portugal, apenas meia duzia de felizes serão profissionais do desporto, e apenas é uma realidade possível no futebol. Todas as modalidades são amadoras, onde uma pequena falange de atletas recebe ajudas de custo e pouco mais.

Como é que os miudos hão-de interessar-se por alguma modalidade? Como é que os pais hão-de motivar os filhos, respeitando clubes e treinadores, se está-se no desporto por “carolice”?

De quem é a culpa? De todos nós…

Curiosidades?

Sabia por exemplo que em Espanha, para praticar basquetebol federado, só a partir do escalão de juvenis é obrigatório ser em recinto coberto. Em Portugal, um país ultra desenvolvido no basquetebol, nem o minibasket pode jogar em ringue descoberto…

Sabia por exemplo que nuestros hermanos espanhóis são campeões do mundo de andebol, hóquei em patins, futebol, futsal e a 2ª melhor seleção de basquetebol do mundo?

Sabia que 97% dos atletas que entram na NBA são licenciados? Imagina quantos jogadores da nossa liga máxima (futebol) não terminaram sequer o 9º ano?

Sabia que após a conquista (fantástica por sinal) da medalha de prata na canoagem, as palavras do presidente da federação foram “precisamos mais condições”, e os remadores do Reino Unido, vencedores da mesma prova elogiaram o complexo desportivo de treino de canoagem nacional dizendo “é a melhor pista do mundo” ?

Sabia que a Ticha Penicheiro é a jogadora com mais assistências feitas da história da WNBA e é considerada uma das melhores atletas de sempre da competição? Sabe qual o destaque dado a ela em Portugal?

Sabia que o IDP (Instituto de Desporto de Portugal) para ganhar mais dinheiro, alterou as carteiras dos treinadores, obrigando a adquirir um documento intitulado “cédula de treinador”, e obrigando ao pagamento de 30 euros? E que esse documento faz e serve exactamente para o mesmo que o anterior?

Esta é uma história que pode continuar, principalmente se a mentalidade não mudar…

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