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A vida depois do cancro

Os 90 anos do IPO, celebrados neste mês de fevereiro, são o pretexto para falar de uma doença que, ainda hoje, continua a ser associada à morte. É uma das doenças mais temidas por toda a gente e continua a ser tabu em Portugal. No entanto, as estatísticas revelam que, com a evolução da medicina, o número de mortes associadas ao cancro está a diminuir.

“Disseram-me que tinha umas microcalcificações no peito mas nunca me passou pela cabeça que o diagnóstico pudesse vir a ser este. Até ao final pensei que não me ia acontecer a mim, ninguém quer que aconteça. Tinha 32 anos na altura, dois filhos com três e cinco anos, eu havia de ser aquela que não tem o cancro.” Mas não foi. Sofia Abreu sabia que algo não estava bem porque continuava a sentir subidas de leite, vários meses depois de ter deixado de dar de mamar. Os médicos desvalorizaram o assunto até ao dia em que, a fazer a cama dos filhos, ficou com a camisa de dormir toda pingada. Resolveu fazer exames e os resultados confirmaram o pior dos receios: tinha um tumor maligno na mama.

Quando o cancro bate à porta

“É verdade que há cada vez mais cura e hipóteses de sobrevivência, mas ainda morre muita gente e isso assusta-nos muito. O cancro é uma doença que pode tocar a qualquer pessoa, por isso mesmo é diferente das outras doenças, ninguém está livre.” Hoje em dia, Sofia apresenta-se como uma mulher positiva, lutadora e independente. Nunca tentou fugir à doença ou escondê-la da família. Mesmo assim, assume que o pior momento de todo este processo foi quando deu a notícia aos pais, “lidar com a família custa muito, é horrível termos de dizer aos nossos pais que estamos doentes. É o único momento que ainda mexe comigo, não consigo, não consigo mesmo, está a ver…” Depois de tirar um lenço do bolso para enxugar as lágrimas, continuou “eu acho que deve ser horrível, imagino os meus filhos… Não consigo imaginar. Enquanto mulher lidei muito bem com a situação. Mas o cancro é uma doença que afeta toda a família, é terrível.”

Sofia Abreu passou por todas as fases do processo: foi operada, fez radioterapia, quimioterapia, tratamentos com hormonas e a reconstrução do peito. Os dois filhos sempre acompanharam lado a lado a doença da mãe. “Eles sabiam que a mãe tinha uma ferida na maminha e que ia ficar sem cabelo. Mas as crianças só fazem das coisas um bicho de sete cabeças se nós o fizermos. Ainda hoje, há muitas mulheres que passam aqui na associação e o maior medo delas é a queda do cabelo. Mas eu costumo-lhes dizer para aproveitarem bem esses tempos. Quando estava careca adorava sentir a água a escorrer pela cabeça abaixo, era maravilhoso. Depois quando o cabelo começou a crescer parecia o de um bebé, ficava horas a fazer festas a mim mesma porque adorava mexer na minha cabeça. É só uma questão de encontrar o lado bom de todas as coisas.”

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“No dia dos anos da minha mãe vim fazer quimio. Estava com uma anemia horrorosa e levei  3 transfusões de sangue antes da quimioterapia. Mas acabei e fui para a festa. E correu tudo bem. Porque a vida é para ser festejada não é?” Sofia Abreu

Esperança para dar e… dar

Treze anos depois, Sofia Abreu é voluntária no ‘Movimento Vencer e Viver‘. É um movimento de entreajuda que apoia as mulheres, familiares e amigos desde o momento em que é diagnosticado um cancro da mama. É promovido e financiado pela Liga Portuguesa Contra o Cancro e tem residência nos pavilhões do IPO. Em Lisboa, são cerca de 25 as voluntárias que apoiam psicologicamente quem sofre com esta doença.

“O facto de termos passado pelo mesmo problema, sim porque todas nós tivemos cancro em alguma altura da nossa vida, faz com que as doentes tenham uma maior empatia e facilidade em falar connosco. Estamos aqui para aconselhar, mas muitas vezes o mais importante é saber ouvir”, garantiu Sofia, com um sorriso no rosto, depois de falar de algumas histórias que mais a marcaram ao longo destes anos de voluntariado. E acrescentou, “Faço voluntariado e adoro o que faço. Temos de dizer às pessoas para terem esperança no futuro. A vida é para ser festejada. Nós estamos doentes sim, e temos o direito a estarmos tristes e a chorar. Mas depois temos a obrigação de reagir, agarrar a vida de maneira diferente porque um cancro modifica-nos quando passa por nós. Eu posso dizer que mudei para melhor.”

O ‘Vencer e Viver’ só aceita mulheres que tenham, realmente, superado a doença. Por isso são necessários um ou dois anos de espera, depois que o cancro está “resolvido”, para poder tirar o curso, estagiar e receber a bata branca e azul, que é vista como o diploma de quem está neste movimento.

Arlinda Mendes também dá do seu tempo a esta causa, já lá vão cinco anos. Sempre foi uma mulher de muito trabalho e o pilar de uma família com três filhos. Aos 52 anos, no duche, sentiu algo estranho na mama direita. Começou a fazer exames, mas a sobrecarga de trabalho não lhe deu tempo para pensar no que estaria para vir.

“A médica disse-me que não tinha boas notícias e disse que quem está doente se tem de tratar. Foram estas as palavras. Depois começou a explicar tudo o que eu ia ter de fazer. Não abri a boca, vim-me embora e só quando entrei no carro é que percebi o peso daquelas palavras.”

Arlinda trabalhava como supervisora de qualidade numa grande empresa nacional, com uma vida profissional muito ativa assumiu que o pior que lhe aconteceu não foi a doença mas sim as consequências que esta lhe trouxe a nível profissional. “Quando souberam que estava com cancro propuseram-me que pedisse a reforma antecipada, era um alvo a abater. Isso foi um balde de água fria para mim, tinha muitos encargos. Foi um desmoronar e entrei em depressão.”

Foi nesta altura que Arlinda começou a receber apoio psicológico do ‘Vencer e Viver’ e a participar em terapias de grupo. Foi ao fundo por duas vezes, mas conseguiu recuperar e voltar ao trabalho.

“Nunca mais me trataram da mesma forma e durante nove meses fizeram de tudo para que eu me despedisse. Aguentei sempre. Mas depois, por uma falha minha, quiseram-me meter um processo disciplinar. Optei por vir embora porque estava a estragar a minha saúde, mas acabei muito prejudicada a nível de direitos, o que me fizeram não se faz a ninguém.”

Hoje é o dia em que ainda guarda essa mágoa mas admite que adora fazer voluntariado, “tenho uma necessidade muito grande de partilhar o que recebo, e sou sempre compensada por tudo o que dou. Fazer parte de uma coisinha pequenina ligada ao IPO é muito bom porque a evolução deste Instituto é maravilhosa.”

“Há uma frase de Confúcio que diz que ‘se nasci e tenho de morrer, vou aproveitar ao máximo o intervalo’. Cheguei à conclusão que o  meu intervalo está no fim, por isso tenho de o aproveitar ao máximo.” Arlinda Mendes

Uma instituição, milhares de histórias

O Instituto Português de Oncologia faz 90 anos. Assinala, no dia 27 de fevereiro, os 135 anos do nascimento do médico Francisco Gentil, o mentor deste projeto. Por essa razão, as celebrações começam este mês. Mas a data oficial é em dezembro. Hoje em dia, o instituto está ramificado em três hospitais autónomos em Lisboa, no Porto e em Coimbra.

Na capital, as traseiras do instituto estão ocupadas por três pavilhões: da Liga Portuguesa Contra o Cancro, do Movimento Vencer e Viver e do Movimento de Apoio a Laringectomizados (MovApLar).

Henrique Dominguez tem 77 anos e há sete descobriu um cancro na laringe. Depois da operação, a vida nunca mais voltou a ser igual. Coisas simples como falar ao telemóvel, participar numa conversa de grupo, falar em sítios onde esteja muita gente ou fazer-se entender nos serviços que têm um vidro a separar o funcionário do cliente tornam-se gestos complicados e, muitas vezes, impossíveis de fazer para um laringectomizado. Também o olfato desaparece quase por completo.

Mas Henrique garante que “perder a laringe não significa perder a capacidade intelectual” e acredita que não pode ser motivo de desânimo nem de isolamento.

Ficou a conhecer este movimento de apoio quando, há uns anos, participou num encontro comemorativo do Dia Mundial da Voz. O MovApLar apoia os doentes com assistência psicológica e material, necessária para o dia-a-dia de um laringectomizado. Uma vez por mês fazem encontros de convívio que ajudam na partilha de experiências.

“Temos de desmistificar o preconceito, o pior já passou. A vida continua, só perdemos a voz e por isso temos de relativizar as coisas, aproveitar e valorizar a vida”, afirmou Henrique que admitiu que, quem passa por esta doença, aprende a “falejar” em vez de falar.

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“Em todas as idades há sempre bons e maus entendedores. E na eventualidade de o outro não nos entender não há que desanimar. Há sempre papel e lápis.” Henrique Dominguez

“Agora tudo é bonito, só queremos é viver”

Mas estes movimentos não são os únicos que se preocupam com os doentes oncológicos. Existem, espalhados por todo o país, grupos e associações que se preocupam com a saúde física e mental destes doentes e os apoiam a vários níveis.

A Associação Portuguesa de Apoio à Mulher com Cancro de Mama (APAMCM) foi criada em 1998 por um grupo interdisciplinar de voluntários profissionais ligados à doença mamária e ginecológica. São 46 os voluntários que prestam cuidados de saúde especializados em várias valências. Consultas médicas, cuidados de enfermagem, aconselhamento sobre nutrição, apoio psicológico individual ou em grupo, formações, tudo isto é gratuitamente oferecido pela APAMCM. Só a fisioterapia oncológica é paga pelas doentes.

Depois de meses a saltar de lugar em lugar para tentar curar um inchaço no braço direito, resultado de um cancro na mama, Maria Manuela Heitor encontrou esta associação. Tinha 68 anos quando descobriu a doença, já lá vão 9 anos. “Não queremos crer, não aceitamos e questionamos sempre porque é que isto nos tinha de acontecer a nós. Na altura, a minha filha e a minha nora estavam grávidas e foi muito difícil contar-lhes o que se estava a passar comigo”, admitiu Maria Heitor.

No dia em que a médica lhe deu o diagnóstico, Maria conta que saiu do consultório a chorar sem dizer uma única palavra. Depois de cair em si, numa outra consulta, perguntou ao médico que a operou quantos meses de vida ainda lhe restavam. “Ele perguntou-me quantos meses é que eu queria viver. Eu respondi-lhe 10 meses, porque queria ver os meus dois netos que estavam para nascer. Ele disse para ficar descansada porque ainda tinha muitos meses de vida.” E tinha razão. Nove anos depois Maria Heitor superou o cancro e está bem.

No entanto, confessou não ter sido fácil: “Quando o cabelo me caiu não me queria ver ao espelho, não queria sair à rua nem que ninguém soubesse da minha doença. Em casa, nunca mostrei o que sentia, tentei sempre dar a entender que estava bem porque não queria magoar mais a minha família.”

Hoje em dia, garante que apesar do cancro ser uma luta constante, é preciso ter esperança e valorizar a vida. ” Agora tudo é bonito, as coisas são mais bonitas agora, tudo vale a pena, tornamo-nos melhores pessoas, só queremos é viver”, assumiu com um brilho no olhar.

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“Nunca dizia aquela palavra porque para mim era muito difícil, eu não era capaz… mas agora digo: eu tive cancro.” Maria Manuela Heitor

Superar a doença com bom humor

Como ela, também Maria Lima já entrou na casa dos 60 e superou um cancro na mama. Tinha 52 anos na altura, é solteira, não tem filhos e vive sozinha.

“É sempre um choque porque achamos que nunca nos vai acontecer a nós. Tenho oito irmãos e nunca me senti sozinha. Acabei por reagir muito bem à doença”, disse Maria Lima.

Maria admitiu que chorou pouco em todo este processo e que a queda do cabelo nunca a incomodou: “cortei-o muito curtinho porque sabia que o cabelo ia cair todo, um dia ao tomar banho, caiu todo de uma vez. Entrei na banheira com cabelo e saí sem nada. Tive medo de olhar-me ao espelho mas quando me vi comecei-me a rir, parecia um frango depenado.”

Foi com este bom humor que Maria Lima superou a doença e recebeu o convite de se tornar voluntária da Associação de Mulheres Mastectomizadas, cujo lema é ‘ame e viva a vida’. Neste projeto, todas as voluntárias são sobreviventes de cancro da mama e apoiam emocionalmente outras mulheres a quem ‘o cancro bateu à porta’.

Este grupo, criado em 2005, conta já com mais de 400 associadas e financia-se com quotas, donativos e eventos que desenvolve.

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“O pior de tudo é receber a notícia, o resto é luta.” Maria Lima

A vida depois do cancro: uma segunda oportunidade

Em pleno século XXI, o cancro continua a ser tabu em Portugal, como se ao não falar a doença não fosse atraída ou ficasse resolvida. A verdade é que cada vez mais pessoas sobrevivem ao cancro, sobretudo quando a doença é detetada atempadamente. Não fugir ao problema, falar abertamente dele, lutar e ter esperança parecem ser os ingredientes que fazem parte ‘poção mágica’ destes sobreviventes.

No mês de fevereiro, comemoram-se os 90 anos do IPO, uma das instituições que mais tem apoiado doentes oncológicos em Portugal, mas também o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro (4 fevereiro).

Sabe-se que o cancro não vai desaparecer de um dia para o outro e que é uma luta constante e dura de travar. No entanto, em cada pessoa que sobrevive à doença, há uma voz de esperança e a certeza de que a vida tem muito mais valor para alguém que se arriscou a perde-la.

Veja ainda a mensagem deixada por António Feio, ator e encenador português, em jeito de comentário ao filme Contraluz, de Fernando Fragata. Deixa uma mensagem de esperança e de vida, antes de morrer com um cancro em 2010.

E ainda, o vídeo promocional de uma das corridas organizadas pela APAMCM.

Patrícia Silva

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2 thoughts on “A vida depois do cancro

  1. Pingback: 350 novos casos de crianças com cancro em Portugal | Clic_Etic_

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