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Sobras que combatem a fome

A Re-food surgiu há dois anos e desde então, ainda, não parou de crescer. Redirecionar a comida que sobra nos restaurantes, padarias e supermercados para quem passa fome é a base de um projeto criado pelo norte-americano Hunter Halder, que está a viver em Lisboa.

Hunter Halder e o filho, fundadores da Re-food

Hunter Halder e o filho, fundadores da Re-food

“Hunter, estão a mexer na sua bicicleta” – o alarme foi dado pela funcionária do café que já se habituou a ver passar a mesma bicicleta várias vezes por dia.

Hunter Halder já é conhecido como o ‘caçador de desperdícios’ e é o mentor de um projeto que tem como principal objetivo redirecionar refeições (as sobras, não os restos) para quem passa fome.

A Re-Food foi lançado a 9 de Março de 2011 e, desde então, ainda não parou de crescer. A bicicleta é a imagem de marca de uma ideia que surgiu por acaso, num jantar de família, quando a filha mais nova deste norte-americano com sotaque aportuguesado perguntou para onde ia toda a comida que sobrava nos restaurantes. Quando lhe tentava explicar que os estabelecimentos não tinham outra alternativa fez-se luz: decidiu que ia ser ele a criar essa opção.

“Passei grande parte da vida a tentar ajudar-me, quando a economia foi ao fundo reavaliei a minha carreira e percebi que queria gastar os últimos anos de vida a ajudar os outros. Envolvi-me em projetos humanitários mas, quando apareceu a ideia da Re- food, abandonei-os todos e dediquei-me a 100% a esta ideia”, assegurou o fundador do grupo.

Hunter Halder trabalhou como gestor durante 15 anos, organizando eventos de team building corporativo.

Teimosia foi a alavanca da Re-food

Hoje em dia a Re-food ajuda mais de 400 pessoas de duas freguesias de Lisboa, Nossa Senhora de Fátima e Telheiras, e são mais de 100 os restaurantes, pastelarias, padarias e supermercados que fazem questão de aproveitar da melhor maneira as sobras que antes acabavam no lixo.

Mas nem tudo foi fácil. “Andei de porta em porta a divulgar a ideia. As pessoas têm resistência à novidade mas eu sou muito teimoso e lutei até conseguir o primeiro sim”, afirmou Hunter Halder, ao recordar os primeiros meses do projeto.

Depois do primeiro “sim”, muitos se seguiram. A publicidade feita com panfletos e, principalmente, com as bicicletas personalizadas alargou os horizontes de um projeto que começou por ser caseiro mas, atualmente, conta já com mais de 300 voluntários.

(Veja o vídeo do mentor Hunter Halder preparado para mais uma recolha de alimentos:)

Projetos sérios também podem ser divertidos

“Só pedimos às pessoas que dispensem duas horas por semana para ajudar esta causa, pedimos pouco e assim temos muito. Não queremos perturbar a vida de ninguém, sim porque a maioria das pessoas tem uma vida para além disto”,  disse, entre risos, o filho do mentor do projeto, Christopher, que também está envolvido nesta ideia desde o início.

A gestão do projeto está a cargo de uma equipa de doze elementos. Existem seis “pastas” – liderança, operações, voluntariado, beneficiários, angariação de comida e apoio comunitário (micro doações mensais que ajudam a pagar as despesas das instalações, como a eletricidade, a água, a luz e as embalagens) – cada uma é orientada por duas pessoas.

Todos os voluntários são distribuídos pelos vários horários e dias da semana. As recolhas de sobras e a distribuição dos cabazes são sempre feitas em grupos de três ou quatro pessoas.

“Este é um projeto muito sério, sim, mas também é muito divertido. Criam-se laços de amizade nos grupos de trabalho, nunca ninguém anda sozinho. São grupos muito sociáveis que se juntam por uma boa causa, ajudar o próximo”, assegurou o fundador da Re-food.

Para fazer as recolhas, uma equipa usa o carro e as outras andam a pé pela freguesia. A distribuição dos cabazes, normalmente, é feita de carro porque os sacos vão mais carregados. Para além disso, o núcleo de Nossa Senhora de Fátima tem quatro bicicletas, uma delas especial para cargas, comprada com doações feitas até ao final do ano passado. “Vamos comprar a segunda bicicleta de carga para o núcleo de Telheiras, já conseguimos angariar o dinheiro”, afirmou Hunter Halder. Mas, em jeito de pedido acrescentou que “estamos à espera de dinheiro para podermos comprar viaturas elétricas, estamos abertos a qualquer oferta.”

“Damos comida a todos os que nos batem à porta… só não podem estar alcoolizados”

Um dia de voluntariado nem sempre é um mar de rosas. Sobretudo ao final da noite, batem à porta da sede encostada à Igreja de Nossa Senhora de Fátima, vários sem-abrigo, alguns já alcoolizados.

” Ainda ontem apareceu aqui um homem bêbedo, abrimos uma exceção e demos-lhe a comida na mesma. A sopa acabou espalhada pelo chão porque, depois disso, ele me tentou roubar a bicicleta e, chateado por o ter impedido, atirou com as sacas para o chão” – contou o mentor do projeto que, a meio da conversa, foi surpreendido por outro contratempo. O mesmo homem voltou à carga e começou a remexer-lhe nos sacos que tinha na bicicleta. Desta vez, foi a funcionária do café que impediu que a comida fosse parar a mãos alheias.

Sopa, pão e sobremesas são as refeições mais frequentes na Re-food, mas não faltam a massa, o arroz e a carne. Por outro lado, a equipa carece de produtos essenciais como o leite, os iogurtes e a fruta.

O sonho comanda… a Re-food

Nestes dois anos, o grupo serviu mais de 100 mil refeições. O objetivo é que, até 2014, todas as freguesias da capital tenham um núcleo da Re-food.

Se a ideia avançar, a associação estima que, por ano, se sirvam entre 5 a 7 mil milhões de refeições, só na cidade de Lisboa.

“Queremos preencher Lisboa e que depois repliquem este modelo por Portugal e pelo Mundo” – atestou Hunter, garantindo que a Re-food já tem tudo o que precisa – comida, beneficiários e voluntários – só falta continuar a crescer.

Para além disso, a equipa quer implementar um novo modelo nos restaurantes – “queremos que as pessoas levem para casa o que deixam nas travessas que lhes chegam à mesa, sem terem a necessidade de pedir. Essa comida vai sempre para o lixo e, infelizmente, muita gente ainda tem vergonha de pedir o saquinho dos ‘restos'”, assegurou.

Braga é a próxima cidade a receber este projeto. Uma equipa de doze pessoas interessou-se pela ideia e quer seguir em frente. Quanto ao Porto, a equipa ainda é pequena, são só quatro os elementos interessados em liderar um núcleo da Re-food.

A publicidade é essencial ao crescimento do projeto, este ano a Re-food vai marcar presença em todos os festivais de música do país.

Visite a página oficial da Re-food

Goste da página do facebook e acompanhe a evolução deste projeto

Veja ainda a galeria de fotos:

Patrícia Silva

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One thought on “Sobras que combatem a fome

  1. Pingback: Re-food: um projeto sobre rodas | Clic_Etic_

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